{"id":1138,"date":"2019-05-07T02:56:44","date_gmt":"2019-05-07T05:56:44","guid":{"rendered":"http:\/\/www.tespis.com.br\/site\/?p=1138"},"modified":"2019-05-07T02:56:46","modified_gmt":"2019-05-07T05:56:46","slug":"a-menor-distancia-entre-o-mal-e-o-sensacional-por-valmir-santos","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.tespis.com.br\/site\/a-menor-distancia-entre-o-mal-e-o-sensacional-por-valmir-santos\/","title":{"rendered":"&#8220;A menor dist\u00e2ncia entre o mal e o sensacional&#8221; por Valmir Santos"},"content":{"rendered":"<p>\u00a0<\/p>\n<p><strong>A menor dist\u00e2ncia entre o mal e o sensacional<\/strong><\/p>\n<div style=\"text-align: right;\">por <b>Valmir Santos<br \/><\/b><\/div>\n<p>\u00a0<\/p>\n<div style=\"text-align: justify;\">A dramaturgia e a dire\u00e7\u00e3o de \u201c<b>\u00cdndice 22<\/b>\u201d emanam movimentos amb\u00edguos ou, quem sabe, complementares, como o pulm\u00e3o em sua sina vital de expandir e contrair o ar. <b>Max Reinert<\/b> assina e opera essas tarefas como arte total, \u00e0 medida que tamb\u00e9m concebe a cenografia e a ilumina\u00e7\u00e3o para o solo de <b>Denise da Luz<\/b>, da <b>T\u00e9spis Cia. de Teatro<\/b>, cuja qualidade de presen\u00e7a em cena demarca um lugar de coautoria no resultado do trabalho.<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">\u00a0<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">O texto cria interse\u00e7\u00f5es surpreendentes com um conto do historiador e antrop\u00f3logo potiguar <b><i>Lu\u00eds da C\u00e2mara Cascudo<\/i><\/b> (1898-1986), \u201c<b><i>A menina enterrada viva<\/i><\/b>\u201d, publicado em \u201c<b><i>Contos tradicionais do Brasil<\/i><\/b>\u201d (1946), na sess\u00e3o \u201c<b><i>Natureza denunciante<\/i><\/b>\u201d.<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">\u00a0<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">Refer\u00eancia na pesquisa e recupera\u00e7\u00e3o da oralidade das lendas, o folclorista Cascudo narra a hist\u00f3ria da crian\u00e7a assassinada pela madrasta. O pai fica triste, \u00e9 enganado de que ela fugira de casa, at\u00e9 o dia em que contrata um homem para capinar o terreiro e este ouve a voz da menina vinda do ch\u00e3o, entoando uma cantiga.<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">\u00a0<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">O conto est\u00e1 publicado no programa de media\u00e7\u00e3o do espet\u00e1culo com o p\u00fablico \u2013 uma boa sacada para a experi\u00eancia de navegar por zonas como que criptografadas do projeto, a come\u00e7ar pelo t\u00edtulo, cuja chave estranhamente n\u00e3o \u00e9 compartilhada.<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">\u00a0<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">Foi preciso consultar um buscador online para saber que, inferimos, \u201c<b>\u00cdndice 22<\/b>\u201d remete ao teto da escala proposta nos anos 1990 pelo psiquiatra estadunidense <b><i>Michael Stone<\/i><\/b>, ap\u00f3s longo estudo acerca da personalidade de criminosos. Para classificar comportamentos brutais que nem a medicina nem a psicologia explicavam a fundo, ele prop\u00f4s uma grada\u00e7\u00e3o que vai do \u00edndice 1 (pessoas que matam em leg\u00edtima defesa e n\u00e3o apresentam sinais de psicopatia, por isso s\u00e3o consideradas normais) ao \u00edndice 22 (psicopatas assassinos fixados em torturar as v\u00edtimas com motiva\u00e7\u00e3o de cunho sexual). A pe\u00e7a toca no quanto o aparente prazer sofrido por uma v\u00edtima chama a aten\u00e7\u00e3o do mercado de cliques.<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">\u00a0<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">Ao interlocutor do espet\u00e1culo n\u00e3o \u00e9 dada margem para interpretar, essa tenta\u00e7\u00e3o de agarrar-se a unidades de tempo e espa\u00e7o. N\u00e3o h\u00e1 \u201cera uma vez\u201d no fluxo de consci\u00eancia dessa voz por meio da qual os criadores ambicionam discutir sobre como a internet amplifica a banalidade do mal no s\u00e9culo XXI, para lembrar da responsabilidade individual que a fil\u00f3sofa <b><i>Hannah Arendt<\/i><\/b> problematizou no modo como o nazismo foi engendrado na Europa.<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">\u00a0<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">Denise e Reinert excitam o imagin\u00e1rio da plateia com outras possibilidades de significa\u00e7\u00e3o que n\u00e3o apenas pela via do verbo. A pe\u00e7a \u00e9 labir\u00edntica feito uma incurs\u00e3o anat\u00f4mica pelas cavidades do organismo humano. O corpo \u00e9 pungido por quem \u00e9 torturado e abduzido pelo seu algoz. J\u00e1 o que baila pela cabe\u00e7a s\u00e3o pensamentos perturbadores ou capazes de produzir verdadeiras sinapses.<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">\u00a0<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">A pervers\u00e3o espelhada no conto popular materializa-se numa dramaturgia cir\u00fargica, propulsora de po\u00e9tica a seco no modo de processar dados da realidade \u00e0 luz da virtualidade da vida contempor\u00e2nea. A escrita trava embate com a permissividade no territ\u00f3rio da web, combinando cen\u00e1rios do notici\u00e1rio com subjetividades do desejo e do \u00f3dio.\n<p>\u00a0<\/p>\n<table class=\"tr-caption-container\" style=\"margin-left: auto; margin-right: auto; text-align: center;\" cellspacing=\"0\" cellpadding=\"0\" align=\"center\">\n<tbody>\n<tr>\n<td style=\"text-align: center;\"><a style=\"margin-left: auto; margin-right: auto;\" href=\"https:\/\/4.bp.blogspot.com\/-8KBzmEpNpjU\/XNEVAqqdN8I\/AAAAAAAABu0\/vIwOiDVVLgMfVFhgyTgPi-37gI7lGE0owCLcBGAs\/s1600\/_LEN5331.jpg\" rel=\"lightbox[1138]\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/4.bp.blogspot.com\/-8KBzmEpNpjU\/XNEVAqqdN8I\/AAAAAAAABu0\/vIwOiDVVLgMfVFhgyTgPi-37gI7lGE0owCLcBGAs\/s400\/_LEN5331.jpg\" width=\"400\" height=\"266\" border=\"0\" data-original-height=\"1067\" data-original-width=\"1600\" \/><\/a><\/td>\n<\/tr>\n<tr>\n<td class=\"tr-caption\" style=\"text-align: center;\">foto by Lenon Cesar<\/td>\n<\/tr>\n<\/tbody>\n<\/table>\n<p>\u00a0<\/p>\n<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">No in\u00edcio, o discurso fragmentado soa mais apoiado na corporeidade. Denise faz as vezes de caixa de resson\u00e2ncia das incertezas do que passou ou est\u00e1 por vir. O gesto ecoa e as falas permitem vislumbrar um elemento de psicoac\u00fastica (na frequ\u00eancia e amplitude), em conson\u00e2ncia com a paisagem sonora e a express\u00e3o f\u00edsica. Sensorialidade introdut\u00f3ria dos estados performativos que v\u00e3o se adensando at\u00e9 o fim.<br \/>Apesar da partitura s\u00f3lida, a constante tem\u00e1tica de \u201c<b>\u00cdndice 22<\/b>\u201d \u00e9 a instabilidade. As frases sobrepostas na proje\u00e7\u00e3o que atravessa o corpo de Denise transmitem satura\u00e7\u00e3o. Textura que remete \u00e0 imagem de <b><i>Isabelle Huppert<\/i><\/b> est\u00e1tica e transpassada por raios de n\u00fameros e palavras em \u201c<b><i>4.48 Psychose<\/i><\/b>\u201d, da inglesa <b><i>Sarah Kane<\/i><\/b>, dirigida pelo franc\u00eas <b><i>Claude R\u00e9gy<\/i><\/b> e apresentada no Brasil em 2003.<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">\u00a0<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">Na montagem da T\u00e9spis h\u00e1 momentos vertiginosos que se aproximam da realidade em 3D pela cintila\u00e7\u00e3o no desenho de luz. \u00c9 quando se intensificam ares de miscel\u00e2nea ou de \u201cmash up\u201d, a mistura musical de faixas instrumentais ou vocais muito comum nas m\u00e3os de DJ. Em vez da multid\u00e3o na pista, temos a vocaliza\u00e7\u00e3o de um ser para tanto mal-estar.<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">\u00a0<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">Quando a atmosfera turva atenua, a transmiss\u00e3o de uma \u201clive\u201d, na qual a fala chega mais compassada e predisposta a ser ouvida, o espectador haver\u00e1 de reestabelecer as bases com a atuante em seu dom\u00ednio t\u00e9cnico-corporal para desvencilhar-se do emaranhado que a encena\u00e7\u00e3o a enreda.<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">\u00a0<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">O tempo real da transmiss\u00e3o e o crescimento de \u201clikes\u201d na propor\u00e7\u00e3o da camada de dramaticidade daquele instante configuram os mecanismos de apelo \u00e0s premissas espetaculares da audi\u00eancia na internet. O sensorial confunde-se com o sensacional. E assim o movimento oscilat\u00f3rio da obra e seu questionamento cr\u00edtico sobre as rela\u00e7\u00f5es t\u00e3o flu\u00eddas quanto brutais assentam-se nessa conversa franca com a tradi\u00e7\u00e3o do relato de car\u00e1ter maravilhoso e o desespero que bate quando se v\u00ea o futuro de perto, c\u00ednico.<\/div>\n<div style=\"text-align: left;\">\u00a0<\/div>\n<div style=\"text-align: right;\"><span style=\"text-align: left;\">***O jornalista e cr\u00edtico\u00a0<\/span><b style=\"text-align: right;\">Valmir Santos<\/b><span style=\"text-align: right;\">\u00a0\u00e9 editor do site\u00a0<\/span><b style=\"text-align: right;\"><i><a href=\"https:\/\/teatrojornal.com.br\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Teatrojornal \u2013 Leituras de Cena<\/a><\/i><\/b><\/div>\n\n\n<figure class=\"wp-block-image\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"1024\" height=\"683\" src=\"http:\/\/www.tespis.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2019\/05\/LEN5353-1-1024x683.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-1139\" srcset=\"http:\/\/www.tespis.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2019\/05\/LEN5353-1-1024x683.jpg 1024w, http:\/\/www.tespis.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2019\/05\/LEN5353-1-300x200.jpg 300w, http:\/\/www.tespis.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2019\/05\/LEN5353-1-768x512.jpg 768w\" sizes=\"auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><\/figure>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u00a0 A menor dist\u00e2ncia entre o mal e o sensacional por Valmir Santos \u00a0 A dramaturgia e a dire\u00e7\u00e3o de \u201c\u00cdndice 22\u201d emanam movimentos amb\u00edguos ou, quem sabe, complementares, como o pulm\u00e3o em sua sina vital de expandir e contrair o ar. 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