{"id":1133,"date":"2019-05-07T02:45:35","date_gmt":"2019-05-07T05:45:35","guid":{"rendered":"http:\/\/www.tespis.com.br\/site\/?p=1133"},"modified":"2019-05-07T02:47:38","modified_gmt":"2019-05-07T05:47:38","slug":"este-obscuro-objeto-do-desejo-por-luciana-romagnolli","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.tespis.com.br\/site\/este-obscuro-objeto-do-desejo-por-luciana-romagnolli\/","title":{"rendered":"&#8220;Este obscuro objeto do desejo&#8221; por Luciana Romagnolli"},"content":{"rendered":"<p><strong>Este obscuro objeto do desejo<\/strong><\/p>\n<div style=\"text-align: right;\">por <strong>Luciana Romagnolli<\/strong><\/div>\n<div>&nbsp;<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">Agora j\u00e1 \u00e9 passado. Quando escrevo estas palavras, \u201c<b>\u00cdndice 22<\/b>\u201d j\u00e1 se encerrou no tempo cronol\u00f3gico. At\u00e9 que se refa\u00e7a em outra noite de apresenta\u00e7\u00e3o, a pe\u00e7a da <b><i>T\u00e9spis Cia de Teatro<\/i><\/b> \u00e9 passado, morto. Ao mesmo tempo (o outro, o tempo subjetivo) faz-se presente reavivado em minha mem\u00f3ria consciente e, talvez, inconsciente. O que essa efemeridade diz da realidade da experi\u00eancia e de sua perman\u00eancia?<\/div>\n<div>&nbsp;<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">A companhia catarinense perscruta as dobras escuras da mente no solo de <b>Denise da Luz<\/b>, escrito e dirigido por <b>Max Reinert<\/b>. Faz da cena o c\u00e1rcere obsessivo de uma subjetividade presa a uma espiral de rumina\u00e7\u00f5es. Angustiada por essa hipertrofia do pensamento, clama por que algo aconte\u00e7a. Mas o que acontece \u00e9 o pr\u00f3prio pensamento, que se faz ato e repeti\u00e7\u00e3o.<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">&nbsp;<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">Tentado a compreender o mundo fora e dentro de si (um modo do ego domin\u00e1-lo), entrega-se a uma investiga\u00e7\u00e3o reflexiva sobre o mal e o gozo em tempos de destitui\u00e7\u00e3o subjetiva e sadismo compartilhado pelas redes sociais.<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">&nbsp;<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">A linguagem psicanal\u00edtica ensaiada nesta cr\u00edtica serve \u00e0 tentativa\/tenta\u00e7\u00e3o de abrir uma fresta para a luz na opacidade da cena armada pela companhia, sem reduzir as suas indetermina\u00e7\u00f5es e indaga\u00e7\u00f5es a afirmativas e pretensas respostas. Fazer, talvez, pulsarem mais algumas inquieta\u00e7\u00f5es.<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">&nbsp;<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">\u201c<b>\u00cdndice 22<\/b>\u201d tem essa qualidade magm\u00e1tica de compostos vol\u00e1teis em estado vari\u00e1vel de fus\u00e3o, que se acumulam sob alta press\u00e3o e temperatura e extravasam em erup\u00e7\u00f5es. Met\u00e1fora para o sofrimento ps\u00edquico que a encena\u00e7\u00e3o tangencia por meio do corpo da atriz, do corpo da tela, dos instrumentos musicais, do corpo da luz e do corpo das palavras. \u201c<b><i>O cen\u00e1rio era um bisturi penetrando na pele. N\u00e3o, o cen\u00e1rio \u00e9 a pele<\/i><\/b>\u201d. Ecos.<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">&nbsp;<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\"><b>Estalos<br><\/b><\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">Nas primeiras imagens, sob uma paisagem sonora de nomes pr\u00f3prios, a luz se decomp\u00f5e em camadas sobre a pele da atriz, que estala violentamente uma baqueta contra a superf\u00edcie de uma caixa percussiva (cajon), produzindo batidas graves. Como um dem\u00f4nio narc\u00edsico de olhar perverso que se satisfaz com o ac\u00famulo de excita\u00e7\u00f5es de uma cena em caos sinest\u00e9sico.<\/div>\n<div>&nbsp;<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">Adiante, essa cena convulsionada encontra paralelo numa esp\u00e9cie de infec\u00e7\u00e3o hacker que faz tremer os pixels e destrincha as cores dos textos projetados. A materialidade c\u00eanica colapsa ante as contradi\u00e7\u00f5es da sobreposi\u00e7\u00e3o: uma descri\u00e7\u00e3o sensorial em primeira pessoa de um ato de viol\u00eancia sofrido \u00e9 recoberta por palavras conhecidas de julgamento e culpabiliza\u00e7\u00e3o da v\u00edtima.<\/div>\n<div>&nbsp;<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">\u00c9 imposs\u00edvel situar se essa disputa de vozes ocorre num tribunal, numa rede social ou dentro da mente de algu\u00e9m. A dramaturgia se tece na indetermina\u00e7\u00e3o do sujeito e nessa multiplicidade de cen\u00e1rios em simultaneidade.<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">&nbsp;<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">Cen\u00e1rios extremos de viol\u00eancia e perversidade, aludidos por ru\u00eddos e nervos e v\u00edsceras autopsiadas. A(s) voz(es) subjetiva(s) encarnada(s) em Denise transita(m) entre esses destro\u00e7os atormentada(s) pela ambival\u00eancia de um \u201cprazer sofrido\u201d. Paira a no\u00e7\u00e3o lacaniana de gozo como essa superposi\u00e7\u00e3o de prazer e desprazer.<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">&nbsp;<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">\n<table class=\"tr-caption-container\" style=\"margin-left: auto; margin-right: auto; text-align: center;\" cellspacing=\"0\" cellpadding=\"0\" align=\"center\">\n<tbody>\n<tr>\n<td style=\"text-align: center;\"><a style=\"margin-left: auto; margin-right: auto;\" href=\"https:\/\/2.bp.blogspot.com\/-gcupbiKxDoU\/XNA6OAkz70I\/AAAAAAAABp8\/Bl2Q9YDbRwk65l22MjjnxdV7aya9V2_0gCPcBGAYYCw\/s1600\/_LEN5418.jpg\" rel=\"lightbox[1133]\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/2.bp.blogspot.com\/-gcupbiKxDoU\/XNA6OAkz70I\/AAAAAAAABp8\/Bl2Q9YDbRwk65l22MjjnxdV7aya9V2_0gCPcBGAYYCw\/s400\/_LEN5418.jpg\" width=\"400\" height=\"266\" border=\"0\" data-original-height=\"1067\" data-original-width=\"1600\"><\/a><\/td>\n<\/tr>\n<tr>\n<td class=\"tr-caption\" style=\"text-align: center;\">foto by Lenon Cesar<\/td>\n<\/tr>\n<\/tbody>\n<\/table>\n<p>Num palco amealhado de vest\u00edgios de narrativas interrompidas, a cena teatral ecoa a cena da fantasia subjetiva do obsessivo. O discurso c\u00eanico, em certo momento, faz-se como fala em transfer\u00eancia anal\u00edtica. Como um ego aprisionado a esse frenesi narc\u00edsico do repisar da pr\u00f3pria dor, debate-se contra o trauma como definidor de toda uma identidade. As descargas de energia excedente em ru\u00eddos e contra\u00e7\u00f5es impedem que o sistema se aniquile. \u00c9 armadilha da qual n\u00e3o se escapa.<\/p>\n<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">&nbsp;<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">Ent\u00e3o, o fazer e refazer pr\u00f3prio do teatro, ressuscitado a cada nova apresenta\u00e7\u00e3o, se assemelha a essa compuls\u00e3o \u00e0 repeti\u00e7\u00e3o. Repeti\u00e7\u00e3o daquilo que extravasa a economia ps\u00edquica e, por isso, n\u00e3o cessa de acontecer no tempo subjetivo. A atriz que repete noite a noite a corporifica\u00e7\u00e3o de uma fic\u00e7\u00e3o diante de um p\u00fablico manifesta uma esp\u00e9cie de reviv\u00eancia do trauma, como quem, recusando a perda\/morte, tenta\/\u00e9 tentada a estancar o tempo para manter aberta a ferida.<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">&nbsp;<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">A T\u00e9spis desce a esse obscuro abismo intrassubjetivo de estranhos objetos de desejo determinada a sustentar a inseguran\u00e7a de n\u00e3o se firmar nas certezas e reafirma\u00e7\u00f5es. Encontra o desafio de uma encena\u00e7\u00e3o do impalp\u00e1vel e do incomunic\u00e1vel que n\u00e3o se encerre em um autocentramento nem se torne obst\u00e1culo \u00e0 escuta e \u00e0 rela\u00e7\u00e3o intersubjetiva.<br>A sinestesia da cena funciona como esse bisturi que pode rasgar a pele entre palco e plateia quando as rumina\u00e7\u00f5es da ang\u00fastia se tornam inacess\u00edveis em sua autorrefer\u00eancia narcisista. O risco remanescente \u00e9 de um ataque aos sentidos que os sature de uma mesma tonalidade sombria, obliterando a percep\u00e7\u00e3o.<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">&nbsp;<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">Ent\u00e3o, quais modula\u00e7\u00f5es rompem a gravidade? Como dar corpo c\u00eanico \u00e0s contradi\u00e7\u00f5es da perturba\u00e7\u00e3o ps\u00edquica? E como encenar a dor n\u00e3o tal qual paisagem que se observa afastadamente, objeto alheio, mas brecha \u00e0 travessia sens\u00edvel entre sujeitos?<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">&nbsp;<\/div>\n<div style=\"text-align: right;\"><span style=\"text-align: right;\">***A jornalista&nbsp;<\/span><b style=\"text-align: right;\">Luciana Romagnolli<\/b><span style=\"text-align: right;\">&nbsp;\u00e9 cr\u00edtica e editora do site&nbsp;<\/span><b style=\"text-align: right;\"><a href=\"https:\/\/www.horizontedacena.com\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Horizonte da Cena<\/a><\/b><\/div>\n\n\n<figure class=\"wp-block-image\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"1024\" height=\"683\" src=\"http:\/\/www.tespis.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2019\/05\/LEN5353-1024x683.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-1134\" srcset=\"http:\/\/www.tespis.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2019\/05\/LEN5353-1024x683.jpg 1024w, http:\/\/www.tespis.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2019\/05\/LEN5353-300x200.jpg 300w, http:\/\/www.tespis.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2019\/05\/LEN5353-768x512.jpg 768w\" sizes=\"auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><\/figure>\n\n\n\n<p><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Este obscuro objeto do desejo por Luciana Romagnolli &nbsp; Agora j\u00e1 \u00e9 passado. 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